sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Poema de Sete Faces

Carlos Drummond de Andrade




Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida


As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres
A tarde talvez fosse azul
Não houvesse tantos desejos


O bonde passa cheio de pernas
Pernas brancas pretas amarelas
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração
Porém meus olhos
Não perguntam nada


O homem atrás do bigode
É sério, simples e forte
Quase não conversa
Tem poucos, raros amigos
O homem atrás dos óculos e do bigode



Meu Deus, por que me abandonaste
Se sabias que eu não era Deus
Se sabias que eu era fraco


Mundo mundo vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução
Mundo mundo vasto mundo
Mais vasto é meu coração



Eu não devia te dizer
Mas essa lua
Mas esse conhaque
Botam a gente comovido como o diabo